Os gatos domésticos descendem de um caçador solitário de regiões secas. Muito do que parece "frescura" — beber pouca água, odiar caixa suja, arranhar o sofá, sumir quando chega visita — é comportamento herdado desse ancestral. Entender essa origem é o caminho mais curto para um gato tranquilo e uma casa em paz.
Caixa de areia: a regra que evita metade dos problemas
Fazer as necessidades fora da caixa é uma das principais razões de devolução de gatos adotados — e quase sempre tem solução. As orientações mais usadas por veterinários comportamentalistas:
- Número de caixas: uma por gato, mais uma. Dois gatos, três caixas, em lugares diferentes.
- Tamanho: cerca de uma vez e meia o comprimento do gato. Caixas pequenas demais são rejeitadas.
- Local: tranquilo, de fácil acesso e longe da comida e da água. Ao lado da máquina de lavar, que faz barulho de repente, não é bom lugar.
- Areia: a maioria prefere areia fina, aglomerante e sem perfume. O cheiro forte agrada ao humano, não ao gato.
- Limpeza: retirar os torrões pelo menos uma vez por dia e lavar a caixa periodicamente, sem produtos de cheiro forte.
Se o gato que sempre usou a caixa passa a fazer fora dela, o primeiro passo é o veterinário: cistite, cálculos urinários, artrose e outras condições dolorosas fazem o gato associar a caixa à dor.
Arranhar é necessidade, não birra
Arranhar mantém as unhas saudáveis, alonga o corpo e marca território com o cheiro das glândulas das patas e com o sinal visual. Não dá para eliminar o comportamento — dá para direcionar. Ofereça arranhadores firmes, altos o suficiente para o gato se esticar inteiro, em sisal ou papelão, nos lugares que ele já escolheu: perto de onde dorme e ao lado do móvel que está sendo arranhado. Recompense quando ele usar. Retirada das garras (onicectomia) é uma amputação, considerada mutilação e condenada pelos conselhos de medicina veterinária.
Enriquecimento: o antídoto para o tédio
Gato que vive em apartamento precisa de estímulo para gastar a energia de caçador. Sem isso surgem obesidade, estresse, ataques aos pés dos tutores e lambedura excessiva.
- Altura: prateleiras, nichos e torres. Gatos se sentem seguros observando de cima.
- Esconderijos: caixas de papelão, tocas e túneis.
- Brincadeira de caça: varinhas com penas, duas ou três sessões curtas por dia, terminando com o gato "capturando" o brinquedo e, se possível, com um petisco ou a refeição.
- Comedouros interativos: fazem o gato trabalhar pela comida, como faria na natureza.
- Janela segura: sempre com tela de proteção, que também evita quedas — uma das causas mais comuns de atendimento de emergência em gatos de apartamento.
Água e alimentação
Gatos têm pouca sede por instinto e muitos vivem levemente desidratados, o que favorece problemas urinários e renais. Para estimular a ingestão: várias fontes de água pela casa, potes largos e rasos, longe da comida, fontes com água corrente e inclusão de alimento úmido na dieta.
Gatos são carnívoros estritos. Precisam de nutrientes encontrados em proteína animal, como a taurina, cuja falta causa problemas cardíacos e de visão. Por isso, ração de cachorro, dieta vegetariana ou comida caseira sem formulação veterinária não servem. Leite de vaca também não é recomendado: a maioria dos gatos adultos tem intolerância à lactose. Mais detalhes no guia de alimentação.
Entendendo a linguagem do gato
- Rabo erguido, com a ponta curvada: cumprimento amigável.
- Piscar lento: sinal de confiança. Experimente piscar devagar de volta.
- Mostrar a barriga: confiança, mas raramente um convite para carinho na barriga.
- Orelhas para trás e rabo batendo: irritação; é hora de parar a interação.
- Pupilas dilatadas e corpo encolhido: medo.
- Ronronar: geralmente bem-estar, mas gatos também ronronam quando estão com dor ou estressados.
Respeitar o "não" do gato — deixá-lo sair do colo, não forçar contato com visitas — é a maneira mais rápida de ele procurar você por vontade própria.
Saúde do gato
Gatos escondem doenças ainda melhor que cães. Vacinas, vermífugo e consulta anual são o mínimo; a partir dos 10 anos, consultas semestrais. A castração, além de evitar ninhadas, reduz fugas, brigas, marcação de território com urina e o risco de alguns tumores. Gatos com acesso à rua vivem, em média, menos que gatos que ficam em casa, por causa de atropelamentos, brigas, envenenamentos e doenças como FIV e FeLV.
Apresentando um gato novo
Gatos são territoriais. Colocar dois gatos desconhecidos frente a frente costuma terminar em briga e numa inimizade que dura anos. O caminho seguro leva dias ou semanas: manter o recém-chegado em um cômodo separado, trocar mantas e brinquedos para que se acostumem com o cheiro um do outro, alimentá-los dos dois lados de uma porta fechada e, só depois, permitir contato visual por uma porta telada antes do encontro livre.