Para um animal que descende de caçadores e presas, mostrar fraqueza era perigoso. Esse instinto continua lá: cães e, sobretudo, gatos disfarçam dor e desconforto até o limite. Quando o tutor finalmente percebe que "tem alguma coisa errada", muitas vezes a doença já avançou. É por isso que a medicina veterinária insiste tanto em prevenção — e por isso este guia é organizado como um calendário, e não como uma lista de doenças.
A consulta de rotina
Mesmo um animal que parece perfeitamente saudável deve passar pelo veterinário pelo menos uma vez por ano. A partir da fase idosa — por volta dos 7 anos para cães grandes e dos 10 para cães pequenos e gatos — o ideal passa a ser a cada seis meses. Na consulta de rotina o profissional pesa o animal, escuta coração e pulmões, examina boca, olhos, ouvidos, pele e abdômen e decide se vale pedir exames de sangue e urina. Mudanças pequenas de um ano para o outro, como um ganho de peso ou um leve aumento de marcadores renais, são exatamente o tipo de informação que permite agir cedo.
Leve anotado o que mudou desde a última visita: apetite, sede, xixi, fezes, energia, tosse, coceira. O veterinário vê o animal por vinte minutos; você vê todos os dias.
Vacinas
O protocolo exato depende da região, do estilo de vida do animal e do histórico de vacinação, então quem define o esquema é o veterinário. Em linhas gerais, no Brasil:
- Cães: vacina polivalente (as chamadas V8 ou V10), que protege contra cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa, leptospirose e outras doenças, e vacina antirrábica. Conforme a região e a rotina do animal, o veterinário pode indicar também vacinas contra gripe canina (tosse dos canis), giárdia e leishmaniose.
- Gatos: vacina polivalente felina (V3, V4 ou V5), contra rinotraqueíte, calicivirose, panleucopenia e, nas versões maiores, clamidiose e leucemia felina (FeLV), além da antirrábica.
Filhotes recebem uma série de doses com intervalos de três a quatro semanas, porque os anticorpos que vieram da mãe interferem nas primeiras aplicações. Até completar o esquema, o filhote não deve passear em locais onde circulam muitos cães desconhecidos. Depois, os reforços seguem o calendário definido na carteirinha. Guarde esse documento: ele é exigido em viagens, hotéis para pets, creches e eventos.
Vermífugos e parasitas internos
Vermes intestinais são comuns, especialmente em filhotes, e alguns deles podem ser transmitidos para pessoas. Filhotes costumam ser vermifugados com mais frequência nos primeiros meses; adultos seguem um intervalo definido pelo veterinário, geralmente entre três e seis meses, de acordo com o risco. Animais que caçam, comem grama ou terra, convivem com crianças pequenas ou frequentam parques entram no grupo de maior risco. Exame de fezes periódico ajuda a escolher o produto certo em vez de tratar "no escuro".
Pulgas, carrapatos e mosquitos
Parasitas externos não são só incômodo. Carrapatos transmitem erliquiose e babesiose, doenças que podem destruir as plaquetas e as hemácias do cão. O mosquito-palha transmite a leishmaniose visceral, presente em várias regiões do país. Pulgas causam dermatite alérgica e transmitem um tipo de verme.
Hoje existem três formatos principais de proteção: comprimidos mastigáveis, pipetas aplicadas na pele e coleiras de liberação prolongada. Cada um cobre parasitas diferentes por períodos diferentes. Em áreas de leishmaniose, coleiras repelentes específicas ajudam a evitar a picada do mosquito. E um detalhe que salva vidas: nunca use em gatos produto feito para cães. Alguns princípios ativos seguros para cães, como a permetrina, são altamente tóxicos para felinos.
Saúde bucal
A doença periodontal é uma das condições mais frequentes em cães e gatos adultos. Começa com placa bacteriana, vira tártaro, inflama a gengiva e pode levar à perda de dentes e a infecções que afetam outros órgãos. Mau hálito persistente não é "normal de cachorro" — é um sinal. O padrão-ouro é a escovação com pasta própria para pets (a humana tem flúor e espumantes que não devem ser engolidos), idealmente todos os dias. Comece devagar, só tocando a boca e recompensando, e vá evoluindo ao longo de semanas. Quando o tártaro já está instalado, a limpeza precisa ser feita pelo veterinário, com anestesia.
Castração
Para a maioria dos cães e gatos de companhia, a castração traz mais benefícios do que riscos. Nas fêmeas, elimina o cio, previne a piometra (uma infecção grave do útero) e, quando feita cedo, reduz bastante o risco de tumores de mama. Nos machos, diminui a vontade de fugir atrás de fêmeas, as brigas e a marcação de território, além de eliminar o risco de câncer testicular. Também é a forma mais eficaz de reduzir o número de animais abandonados.
A idade ideal varia. Gatos e cães pequenos costumam ser castrados por volta dos seis meses; para raças grandes e gigantes, muitos veterinários recomendam esperar o fim do crescimento, porque os hormônios participam do fechamento das placas ósseas. Depois da cirurgia, o gasto calórico cai — ajuste a ração para evitar ganho de peso.
Sinais de alerta: veterinário no mesmo dia
- Vômitos repetidos em poucas horas, ou vômito com sangue ou aspecto de borra de café.
- Diarreia com sangue, ou diarreia intensa em filhote.
- Barriga inchada e dura, com tentativas de vomitar sem sucesso — em cães grandes pode ser torção gástrica, uma emergência.
- Dificuldade para respirar, gengivas pálidas, roxas ou amareladas.
- Convulsão, desmaio, desorientação ou cabeça inclinada de repente.
- Gato que entra várias vezes na caixa de areia e sai sem urinar, ou que chora ao tentar — obstrução urinária pode matar em poucos dias, principalmente em machos.
- Recusa total de comida por mais de 24 horas (em gatos, jejum prolongado pode causar lipidose hepática).
- Ingestão de algo tóxico ou de um objeto, mesmo sem sintomas.
O kit básico de casa
Termômetro digital (a temperatura normal de cães e gatos fica entre cerca de 38 °C e 39,2 °C), gaze, atadura, soro fisiológico, luvas, o telefone do seu veterinário e o endereço de um pronto-atendimento 24 horas. Remédio humano fica fora do kit: paracetamol e anti-inflamatórios comuns podem ser fatais para pets, especialmente para gatos.